segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A verdadeira origem dos Carcarás de Saboeiro


A VERDADEIRA ORIGEM DOS CARCARÁS DE SABOEIRO
                                                                          
                                               Autor: Eneas Braga Fernandes Vieira
                                               Publicado por: Heitor Feitosa Macêdo no Blog Estórias & História
        
         Maria Celina Fernandes Moura (DIÁRIO DO CEARÁ, edições de 20 e 21 de 1950), Antenor Gomes Barros Leal (HISTÓRIAS DA FUNDAÇÃO DE BOA VIAGEM, Ceará, 1962) e outros erraram, data vênia, quando afirmaram que AGOSTINHO SANCHES DE CARVALHO e ANA GONÇALVES foram os progenitores das chamadas 7 irmãs.
Cel. João Batista Fernandes Vieira.
         Inicialmente, diga-se de passagem, filhas foram seis. O sétimo da irmandade era homem. E foram eles: Bernardina, Anacleta, Ana, Eugênia, Antônia Franco, Agostinha e Domingos Sanches de Carvalho. Portanto, mais adequado seria dizer-se 7 irmãos.
         Não viviam estes Carvalhos na Capitania de Pernambuco, antes de virem para o Ceará, como se disse, e sim em Itamaracá. Em vários assentamentos religiosos do Livro Nº 1, de casamentos e nascimentos da Freguesia de Nossa Senhora da Expectação do Icó, onde figuram os nomes de algumas das citadas irmãs, a naturalidade delas é dada como sendo daquela ilha.
         Por outro lado, não é sustentável a tese de que os pais dos 7 irmãos fossem cristãos-novos. É apenas provável que tenham sido, em vista de que as famílias Sanches e Carvalho, tanto de Espanha como de Portugal, tradicionalmente eram judaizantes. O Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, foi amigo dos cristãos-novos de Portugal e, ao tempo de Primeiro Ministro de Dom José, aboliu a discriminação religiosa, justamente para favorecer aos judeus. O médico Ricardo Sanches e Ribeiro Sanches, judeus e reformadores liberais juntamente com os maçons Verney, Frei Manoel do Cenáculo e o licenciado Francisco José Freitas, modificaram totalmente  os estatutos da Universidade de Coimbra, atitude por demais revolucionária para a época.
         Na redação oficial dos que foram julgados, em Pernambuco, pelo Santo Ofício, não consta nenhum Sanches ou Carvalho, seja de um ou de outro sexo. E moradores do Ceará que foram às barras daquele Tribunal figuram apenas dois: Antônio Correia de Araújo Portugal e Antônio Mendes da Cunha, o primeiro, residente no Icó, e o segundo, em Quixeramobim. Ambos por terem se casado por duas vezes, quando as legítimas ainda viviam, em Portugal. Aquele era casado com Felipa da Silva e Joana Rodrigues do Ó, este com Teodósia Fernandes e Ana Maria Valéria.
Visconde do Icó, F. Fernandes Vieira.
         Até bem pouco, pensava-se pela tradição velha, que os pais dos Sete Irmãos fossem Agostinho Sanches de Carvalho e Ana Gonçalves de Carvalho. Mas um documento coevo, somente agora conhecido, veio dissipar este engano. Trata-se do termo de casamento de JOÃO BATISTA VIEIRA, português de São Martinho de Galegos, Arcebispado de Braga, filho legítimo de Miguel Vieira e de Domingas Fernandes, de avós ignorados, com ANTÔNIA DE OLIVEIRA, filha legítima de José de Oliveira Bastos, português de Basto, e de Antônia Franco de Carvalho, natural de Itamaracá, neta paterna de Francisco de Oliveira e de Senhorinha Rodrigues, neta materna de MANOEL DA ROCHA FRANCO  e de sua mulher MARIA SANCHES DE CARVALHO.
         Ora, se Antônia Franco de Carvalho era uma das irmãs carvalhinhas e se sua filha, Antônia de Oliveira, era neta materna de Manoel da Rocha Franco e de maria Sanches de Carvalho, lógico é dizer que estes foram os pais dos outros irmãos Sanches de Carvalho.
         A cerimônia religiosa dos pais de Francisco Fernandes Vieira, Visconde do Icó, foi levada a efeito na Capela de N.S. da Glória, filial da Freguesia de N.S. do Carmo dos Inhamuns, hoje Jucás, em 12 de novembro de 1766, na presença do Cura dos Inhamuns, Padre Sebastião da Costa Machado, do Padre Francisco Gomes Correia e de muitas pessoas, sendo testemunhas o Capitão Gabriel da Costa Lousada e Manoel da Costa Veigas.[1]
         Bernardina casou-se duas vezes e sobreviveu e sobreviveu aos dois maridos. A 1ª vez, casou-se com o Tenente Coronel Antônio Lopes de Azevedo. E assinava Bernardina Maria de Andrade. Tiveram três filhos: Padre Antônio Lopes de Azevedo, Maria Sanches de Carvalho, solteira, e Maria Teodora do Carmo que se casou com Bento Dinis Barbosa. O seu segundo matrimônio foi com o Capitão-Mor João Bento da Silva de Oliveira. Ela assinava Bernardina Sanches de Carvalho, seu verdadeiro nome. Tiveram dois filhos: Vitoriana Maria de Santa Gertrudes, solteira, e o Sargento-Mor Bento da Silva, casado com Jacinta Alexandrina de Freitas Acióli. Bernardina e os maridos viveram no Icó. (Termos de nascimentos e casamentos lançados nos livros Nº 1 da Freguesia do Icó, já referido).
         Anacleta casou-se com o Capitão Francisco Xavier de Oliveira Campos. Assinava Anacleta da Silva de Carvalho. Viveram no Sítio Poço do Mato, hoje distrito de Caipu, Município de Cariús. O Capitão foi o doador do patrimônio do Bom Jesus do Poço do Mato.
         Eugênia casou-se com Antônio Domingos Alves, pernambucano fundador de Boa Viagem, antigo Cavalo Morto. Foi aquela que fugiu do Icó para Marvão, no Piauí, e cujo casamento foi cheio de peripécias e lenda. O certo é que em 1743, Antônio Domingos Alves era dono de terras nas ilhargas do Rio Cavalo Morto que deságua no Quixeramobim. (Livro de DATAS DE SESMARIAS, vol. 14. pág. 131; Memórias do Prof. Manoel Ximenes de Aragão, in R.I.C., Tomo 24, pág. 47; O BACAMARTE DOS MOURÕES, Nertan Macêdo e O CEARÁ, Raimundo Girão e Martins Filho).
         Domingos casou-se com D. Clara Francisca de Brito, índia da aldeia Curralinho, de Sergipe d'El Rei. Tiveram os seguintes filhos: Maria Sanches de Carvalho, Clara Joaquina de Sá, Joana Inácia da Silva e Raimundo Sanches de Carvalho. Em 1809, já viúvo, juntamente com as quatro filhas descritas acima, vendeu ao Capitão-Mor Gonçalo Batista Vieira uma légua de terra no Sítio Bom Sucesso, Jucás, onde residiam ele e as três primeiras filhas, que eram solteiras. (Escritura pública de compra e venda, no original em nosso poder).
         Ana casou-se com o Capitão Francisco Ferreira da Mota. Passou a chamar-se Ana Ferreira da Silva. Residiam no Sítio Pitombeira que fica localizado nas proximidades do povoado de Barrinha, em Saboeiro. Deles vêm os cunhados carcarás pitombeiras. Em julho de 1739, no Sítio Camaleões, que compreende hoje parte das fazendas Varzinha, Uruguai, Cavalinho, Serrinha principalmente, e Pedra Branca, de um e outro lado do Rio Jaguaribe, o Padre Francisco Xavier de Vasconcelos batizou a Antônio, filho do casal, sendo-lhe padrinhos Tomás Alonço e Ângela da Silva, mulher do Comissário Francisco Pereira de Carvalho. (Livro da Freguesia de N.S. da Expectação, pág. 24).
         Antônia Franco casou-se no lugar Caiçara, com o português de Basto, José de Oliveira Bastos, filho legítimo de Francisco de Oliveira e de sua mulher Senhorinha Rodrigues. Deles, principalmente, por ter sido um casal  que deixou grande descendência e por ter vivido no Sítio Carcará de Baixo ou Santa Cruz, para distinguir do verdadeiro Sítio Carcará, recebido em sesmaria, no ano de 1718, por Ventura Rodrigues e Domingos Rodrigues, baianos do Rio São Francisco, é que procede a família saboeirense, assim conhecida, isto é, Carcará, por causa do local do mesmo nome.
         O Sítio Santa Cruz ou Carcará de baixo foi pedido pelos pernabucanos de Serinhaém, Lourenço Alves Feitosa e Francisco Alves Feitosa, em 1721. Esta fazenda Santa Cruz, ou simplesmente Cruz, nome pelo qual ficou mais conhecida e como era, aliás, colocado nos termos religiosos, deu origem à Povoação da Cruz, hoje Saboeiro. Na primeira metade do século XVIII, ela pertencia ao Coronel Manoel Gonçalves de Souza. Ali , em 14-07-1735, foi batizada Joana, filha legítima do dito Coronel e de sua mulher Maria da Conceição. (Livro da Freguesia do Icó, já citado).
         A fazenda, mutatis mutandis, veio a pertencer a José de Oliveira Bastos e seus herdeiros.
         De Ana Gertrudes Barbosa, casada com Custódio André dos Santos, natural de Santo André, Bispado do Porto, filha legítima de Maria Teodoro do Carmo, casada com Bento Dinis Barbosa, neta, aquela, de Bernardina Sanches de Carvalho e João Bento da Silva de Oliveira, vêm os carcarás de Marrecas, Tauá, cujos descendentes convolaram núpcias com os de Pitombeira e Cruz, em Saboeiro.
         Em menor escala, os carcarás saboeirenses têm origem também do casal Francisco Xavier de Oliveira Campos - Anacleta da Silva de Carvalho.
         Mas a principal fonte genealógica dos carcarás de Saboeiro, portanto, é o casal José de Oliveira Bastos e Antônia Franco de Carvalho, natural da ilha de Itamaracá.
         Manoel da Rocha Franco era irmão do Capitão-Mor da Ribeira do Acaraú, Pedro da Rocha Franco que faleceu em 1754, com 79 anos de idade, segundo o testamento que fez a véspera da morte. Era filho de Manoel Maria e Maria Rodrigues. Nasceu em Concelho do Tejo, numa localidade chamada Logar da Igreja. (in BOLETIM DO INSTITUTO CULTURAL DO VALE CARIRIENSE, ANO-1979, Nº 6)
             


[1] O Visconde do Icó, Francisco Fernandes Vieira, era filho do português João Batista Vieira e Antônia de Oliveira Bastos, conforme os registros paroquiais. Ver: Aécio Feitosa, CASAMENTOS CELEBRADOS NAS CAPELAS, IGREJAS E FAZENDAS DOS INHAMUNS (1758 - 1801) - HISTÓRIA DA FAMÍLIA FEITOSA, Fortaleza, 2009, p. 66).


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